Nego Drama

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Primeira juíza negra no Brasil é indicada à premiação voltada a mulheres que fazem a diferença em políticas públicas


A juíza baiana Luislinda Valois, 66 anos, decretou a primeira sentença aos 9 anos, numa aula de matemática. A filha de Luiz, motorneiro de bonde (responsável por recolocar o carro elétrico no trilho), e da costureira Lindaura estava contente com o compasso de madeira que seu pai havia comprado à custa de muito suor. Quando o professor viu que o material não era de plástico, soltou: "Você não devia estar estudando, e sim cozinhando feijoada para branca!".
Juíza Luislinda Valois
Ainda hoje, 57 anos depois, os olhos da juíza negra e de cabelo rastafári do Brasil se enchem de lágrimas ao lembrar da cena que definiu seu futuro: "Vou ser juíza para te prender!", sentenciou. Luislinda não é mulher de desonrar palavra, mas resolveu usar o poder com gente mais precisada.
Lavadeira e miss
Filha de Iansã, orixá do candomblé que simboliza a encarnação de tempestades e raios, ela criou, em 2003, o projeto Balcão de Justiça e Cidadania (em parceria com a Fundação Norberto Odebrecht), que resolve conflitos de populações de bairros pobres de Salvador, áreas de remanescentes dos quilombos e comunidades indígenas.
Por feitos como esse, tem passagem livre em lugares como o bairro da Paz, a região mais violenta da capital baiana. Mas não é de agora que Luislinda gosta de desafio. Aos 7 anos, lavava fraldas para pagar o curso de datilografia. Aos 15, com a morte da mãe, virou chefe da casa que dividia com três irmãos e o pai.
Na escola, era a primeira da sala. Antes de cursar Direito, foi eleita Miss-Mulata Bahia e estudou teatro e filosofia. Em 1991 passou em primeiro lugar em um concurso nacional para a Advocacia Geral da União. Virou juíza em 1984 e até hoje não abre mão de seus colares de conta do candomblé nas audiências. "Só de olhar, sei se uma testemunha vai mentir", garante.
Negra, pobre, divorciada e rastafári

Luislinda já não participa dos projetos que criou, mas escreve um livro sobre a influência negra nas metrópoles e passa férias na casa do único filho, o promotor de justiça Luis Fausto, em Aracaju (SE), com suas duas netas. Com a consciência apoiada num confortável travesseiro, ela dorme tranqüila.
Em casa Luislinda sempre falou para eles que ser negro é maravilhoso. Mas também que não era para deixar ninguém tomar conta deles. "Sou muito séria nas minhas posições. Não posso vacilar, afinal sou negra, pobre, vim da periferia, sou divorciada e ainda sou rastafári", brinca.
A autora do livro "O negro no século XXI", publicado em 2009 fica orgulhosa. A obra reúne artigos sobre temas variados como cultura, educação, políticas públicas, justiça social e religião. Todos mediados pela experiência negra no país pós-escravidão.
Luislinda também foi a primeira a dar uma sentença tendo como base a Lei do Racismo. Foi a ação movida por Aila Maria de Jesus, que se recusou a abrir a bolsa num supermercado, depois de ter sido acusada injustamente de ter roubado um frango e um sabonete.
Juíza é indicada ao Prêmio Claudia 2010
Luislinda concorre ao Prêmio Claudia 2010, principal premiação voltada para a mulher brasileira, que neste ano está na 15ª edição.
A juíza se junta a outras 14 indicadas ao prêmio, que contempla, além de mulheres que fazem a diferença nas áreas de políticas públicas, outras que participam nas categorias ciências, negócios, trabalho social e cultura. Uma homenageada especial, reconhecida pelo conjunto de sua obra, também é eleita todos os anos.
Além dos leitores, a própria redação da revista Claudia e uma comissão de notáveis, formada por dois representantes de cada quesito, escolherão a vencedora.
Com o propósito de valorizar exemplos de generosidade, de coragem e perseverança que existem na mulher brasileira, o Prêmio Claudia tornou-se uma referência para o público. É a maior e mais importante premiação da capacidade da mulher de transformar sua realidade com iniciativas originais que podem ser replicadas. Firmou-se como a grande celebração da força feminina no Brasil, além de ser um projeto assinado pela revista que é líder absoluta em seu segmento no país e na América Latina.
Ao todo, o prêmio já consagrou 70 mulheres, entre elas Fernanda Montenegro, Mayana Zatz, Luiza Helena Trajano e Nicette Bruno. No ano passado a atriz Bibi Ferreira foi contemplada com a homenagem. (Com informações de Revista TPM, Juruá Editora, Bahia Notícias, Correio 24 horas e Linhas & Laudas).

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lanceiros Negros, o lado B que a história gaúcha insiste em esconder


Entre 1835 e 1845 o império brasileiro testemunhou o mais longo conflito ocorrido em nosso território, a Revolução Farroupilha. E, é neste contexto histórico, que surgiram os lanceiros negros farroupilha. Recrutados em meio aos negros campeiros e domadores da atual Região Sul do Estado gaúcho (Canguçu, Pelotas, Bagé, Piraí...), os lanceiros quando na sua fundação foram organizados em duas divisões: "uma de cavalaria, e a outra de infantaria, criados respectivamente, em 12 de setembro de 1836 e 31 de agosto de 1838". As referidas divisões, segundo o historiador e oficial do Estado Maior do Exército Brasileiro, Cláudio Moreira Bento "eram constituídas basicamente, de negros livres ou de libertos pela República Rio-Grandense,(...)."


Temidos pelo fato de serem truculentos e ao mesmo tempo exímios esgrimistas, esses combatentes, sobretudo a cavalaria, utilizava como equipamentos de combate: lanças compridas; coletes de couro cru; esporas afiadas presas aos pés e boleadeiras. A boleadeira, por exemplo, quando arremessada capturava o inimigo que por ventura estivesse distante de uma montaria.
Subordinados a vários ex-oficiais do militarismo imperial brasileiro, entre eles, os idealizadores dos lanceiros, coronéis Joaquim Pedro Soares e Teixeira Nunes, o efetivo formado pela parcela mais discriminada da população, isto é, os negros, ocuparam um importante destaque na nomenclatura do conflito. Isto porque, foram muitas as batalhas em que os milicianos agiram em defesa dos mesmos objetivos ensejados pelos revolucionários, ou seja, o de garantir um futuro melhor e mais justo para todos os provincianos.
Sob os olhares de Bento Gonçalves, do casal Garibaldi e de David Canabarro, os revolucionários negros participaram efetivamente da tomada de Porto Alegre, da conquista de Laguna, e do conflito na Região de Lages, além da Batalha de Porongos.
De acordo com historiadores, Canabarro teria ordenado desarmar os cerca de 600 lanceiros na noite de 14 de novembro de 1844. Tal determinação não chamaria a atenção, se ela não tivesse sido transmitida na mesma noite do ataque imperialista. São muitas as fontes afirmando o "pacto de extermínio dos negros com Caxias para que não houvesse impedimento na assinatura do tratado de paz com os revoltosos". A realização do provável acordo "arquitetado por Caxias ''tinha embasamento alicerçado em duas vertentes naturais. Ao exterminar o maior número de negros possível, certamente diminuiriam também as exigências dos revoltosos no que tange o acordo de paz. Por outro lado, "manter a liberdade do grande contingente negro com experiência militar era um grande risco para sociedade".
Desarmados e sem apresentar nenhuma reação, a tropa de choque mais temida do Sul brasileiro foi dizimada no cair da madrugada. Infelizmente, o passado relacionado aos lanceiros negros farrou pilha sempre esteve atrelado aos bastidores da historiografia oficial, e somente em 1870, é que surgiu o primeiro livro sobre o assunto.

De 07 a 20 de setembro, a história deste grupamento será relembrada na maior festa popular do Rio Grande do Sul através da Semana Farroupilha.

A força está no cabelo


Negra, Negra!
Solte esse cabelo!
Pois seu cabelo é beleza!
Seu cabelo são as forças da natureza!

Seu cabelo não é sensual, exótico ou misto de inferioridade estético ocasional!
Seu cabelo é a representação de nossos ancestrais!
A continuação de Lélias Gonzáles, Ângela Davis, Rainhas Nzingas e Cleopatas!

Negra, Negra!
Solte esse cabelo deixe os alisantes!
Tire-o das correntes das queimaduras constantes

Negra nosso cabelo não é ruim, duro ou feio!
Nosso cabelo é a concretização geométrica!
O ideal dos múltiplos formatos!
O volumoso matemático!

Negra dê o grito de liberdade e resgate nossa ancestralidade
Diga não a discriminação introjetada pela opressão
daqueles que só nos fizeram mal!

Negra Nanã, Oxúm,Iansã, Iemanjá e tantas outras deusas africanas são o símbolo de nossa beleza.
Negra nossa beleza é africana originada das mais belas abstrações míticas!
Negra somos a arte em carne e sangue

Poesia de: Luane Bento dos Santos

Energias da natureza

Já nem sei mas quem sou. sou a fusão de todas as energias da natureza, que ficaram de Atlântico para cá.
Tem horas que me sinto meio terra, meio vento, meio mar, meio água doce, meio barro, meio folha, meio fogo, meio trovão, meio a morte
, entremeios a vida.
É pois é sou minha ancestralidade!
Sou mandiga!
Sou feiticeira!
Sou cabocla!
Sou preta, negra, retinta, dourada!
Sou o conjunto de África!

Luane Bento do Santos




Poesia de: Luane Bento dos Santos

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cinco evidências que Jesus não era branco


A questão da cor de Jesus sempre foi um tema polêmico, evocando fortes paixões tanto a favor como contra a negritude e branquitude de Cristo. Tem uma brincadeira que os negros norte-americanos costumam dizer sobre três maneiras que prova que Jesus era Negro:

  • Ele chamou todos de  irmãos,
  • Gostava do Evangelho, e
  • Ele não poderia ter um julgamento justo.

 
Brincadeira  à parte, o fato é que existe fortes evidencias bíblicas que Jesus não era branco. Vejamos 5 delas:

  1. Jesus nasceu em Africa. Os Evangelhos dizem de maneira explícita que Jesus nasceu em “Belém de Judá, no tempo do rei Herodes” (Mt 2,1 cfr. 2, 5.6.8.16), (Lc 2, 4.15), (Jo 7, 40-43). Nos tempos antigos, incluindo o tempo de Jesus, Belém de Judá era considerado parte de  África. Até a construção do Canal de Suez, Israel fazia parte da África. Esta visão haveria de perdurar até 1859, quando o engenheiro francês Ferdinand de Lesseps pôs-se a construir o Canal de Suez. A partir daí, foi a África separada não somente geográfica, mas sobretudo histórica, cultural e antropologicamente do que hoje chamamos Oriente Médio. Aquela milenar extensão da África passa a figurar nos mapas como se fora Ásia. 
  2. Jesus tinha presença negra na linhagem familiar. A genealogia de Jesus foi misturada com a linha de Cam desde os tempos passados em cativeiro no Egito e na Babilônia. Nos antepassados de Jesus através de Cam, lado feminino desta mistura, há cinco mulheres mencionadas na genealogia de Jesus Cristo ( Tamar, Raabe, Rute, Bateseba e Maria) (Mateus 1:1-16). As primeiras senhoras mencionadas eram de descendência de Cam. Assim, Jesus pode ser aclamado etnicamente pelos povos semitas e descendentes de Cam.
  3. Jesus era da tribo de Judá, uma das tribos Africanas de Israel. Ancestrais masculinos de Jesus vêm da linha de Sem (miscigenados). No entanto, a genealogia de Jesus foi misturada com a linha de Cam desde os tempos passados em cativeiro no Egito e na Babilônia. O antepassado de Jesus através de Cam é narrado em Gênesis 38: então Tamar, a mulher Cananéia (Negra) fica grávida de Judá, e dá à luz aos gêmeos Zerá e Perez, formando a Tribo de Judá, antepassados do rei Davi e de José e Maria, os pais terreno de Jesus. 
  4. Jesus se escondeu entre os Negros. Não foi por acaso que Deus enviou a Maria e José para o Egito com o propósito de esconder o menino Jesus do rei Herodes (Mateus 2:13). Ele não poderia ter sido escondidos no norte da África se fosse um menino branco. Não por proteção militar já que nessa época o Egito era uma província romana sob o controle romano, mas porque o Egito ainda era um país habitado por pessoas negras. Assim, José, Maria e Jesus teriam sido apenas mais uma família negra entre os negros, que tinham fugido para o Egito com a finalidade de esconder Jesus de Herodes, que estava tentando matar o menino. Se Jesus fosse branco, loiro de olhos azuis, teria sido difícil para ele e sua família se esconder entre os egípcios negros sem ser notado. O povo hebreus era muito parecido com povo egípcios, caso contrario  teria sido difícil reconhecer uma família hebraica entre os egípcios Negros. Foi no Egito que o povo de  Israel  teve seu auge da negritude, Setenta israelitas entraram no Egito e lá ficaram  durante 430 anos, trinta anos os israelitas foram hóspedes, e 400 anos  cativos no Egito, eles e seus descendentes se casaram com não-israelitas, chegando a mais de 600.000 homens, mulheres e crianças. Saíram do Egito uma multidão misturada. Etnicamente, os seus antepassados eram uma combinação de afro-asiáticos. 
  5. Jesus era semelhante pedra de jaspe e de sardônio. Em apocalipse a Bíblia continua mostrando a negritude de Jesus. Ele é chamado o Cordeiro de Deus segundo as Escritura Sagrada, com seu cabelo lanoso, sendo comparado a lã de cordeiro, e os pés com a cor de bronze queimado(Apocalipse 1:15), com uma aparência semelhante pedra de jaspe e de sardônio (Apocalipse 4:3), que são geralmente pedras amarronzadas. As cores de jaspe e sardônio não são únicas e absolutas, são diversas cores.

Fonte: Afrokut

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

80 Anos da Frente Negra Brasileira


"A Frente Negra Brasileira foi fundada em 16 de setembro de 1931 e durou até 1937, tornando-se partido político em 1936. Foi a mais importante entidade de afrodescendentes na primeira metade do século, no campo sócio-político. A Frente Negra foi um movimento social que ajudou muito nas lutas pelas posições do negro aqui em São Paulo.

Existiam diversas entidades negras. Todas essas entidades cuidavam da parte recreativa e social, mas a Frente veio com um programa de luta para conquistar posições para o negro em todos os setores da vida brasileira. Um dos seus departamentos, inclusive, enveredou pela questão política, porque nós chegamos à conclusão de que, para conquistar o que desejávamos, teríamos de lutar no campo político, teríamos de ter um partido que verdadeiramente nos representasse.

A consciência que existia na época eu acho que era muito mais forte que a que existe agora. Quando o negro sente uma pressão, quando qualquer agrupamento humano sente uma pressão, procura um meio de defesa. A pressão era tão forte que muitos jornais publicavam: "Precisa-se de empregado, mas não queremos de cor".
Havia alguns movimentos também no interior, principalmente nos lugares em que os negros não passeavam nos jardins, mas na calçada. Muitas famílias não aceitavam, inclusive, empregadas domésticas negras; começaram a aceitar quando se criou a Frente Negra Brasileira. Chegou-se ao ponto de exigir que essas negras tivessem as carteirinhas da Frente.
Então, essa consciência era muito mais acentuada do que nos dias atuais. Porque hoje os jovens negros, a meu ver, estão muito acomodados, não sei se por receio ou não. A Frente Negra funcionava perfeitamente. Lá havia o departamento esportivo, o musical, o feminino, o educacional, o de instrução moral e cívica. Todos os departamentos tinham a sua diretoria, e o Grande Conselho supervisionava todos eles. Trabalhavam muito bem.

Dessa forma, muitas entidades de negros que cuidavam de recreação filiaram-se à Frente Negra. E existiam diversas sociedades em São Paulo e pelo interior afora. Por isso a Frente cresceu muito, cresceu de uma tal maneira que tinha delegação no Rio de Janeiro, na Bahia, no Rio Grande do Sul, e, Minas Gerais etc."

fonte:: Portal Gelédes

sábado, 6 de agosto de 2011

O negro de alma negra: Uma entrevista com Oliveira Silveira 2008

por Fernanda Pompeu *

Junho de 2008. Eu estava na recepção de um hotel no centro de Porto Alegre. Faltavam três minutos para as 10 da manhã. Sentia uma pequena apreensão, comum toda vez que aguardo alguém para entrevistar. No caso, seria um trabalhinho rápido. Precisa apenas de uma ou duas declarações do entrevistado para ilustrar uma matéria. Como em geral, nós brasileiros, não primamos pela pontualidade, sentei-me e abri um exemplar da Zero Hora - o mais afamado jornal gaúcho. Antes de ler a segunda manchete, olhei para o relógio (10 horas) e, automaticamente, para a porta de entrada. Então, vi surgir um dos homens mais elegantes que já vi na vida. Muito magro, vestindo um sobretudo e apoiando-se em uma bengala. Sem nenhuma senha, trocamos um olhar e sorrimos. Eu perguntei: "Oliveira Silveira?" Ele estendeu a mão para que eu a apertasse.
Minutos depois nos acomodamos em um café na esquina do hotel. Liguei o gravador, peguei caderneta e caneta. No lugar de uma declaração, meu entrevistado me deu uma aula. Começou contando que seu nome inteiro era Oliveira Ferreira da Silveira, nascido na gaúcha Rosário do Sul (384km de Porto Alegre), no ano de 1941. Acrescentou que amava as palavras antes e depois de tudo. "Sou escritor, trabalho mais com poesia. Mas também escrevo prosa, na forma de ensaios e matérias jornalísticas. Enfim sou uma pessoa da literatura", sublinhou ao mesmo tempo que fez menção à minha caneta de tinta verde. Tive certeza do seu amor à escrita, pois apenas escritores reparam na cor da tinta das canetas. Oliveira Silveira, entre outros livros, publicou Poema sobre Palmares, Banzo Saudade Negra, Pelo Escuro, Roteiro dos Tantãs, além da participação em várias antologias.
Da literatura, a conversa saltou para o drama dos Lanceiros Negros na revolta Farroupilha (1835-1845). Os lanceiros, depois de dez anos de lutas, foram dizimados em uma emboscada. Por quê? Para não serem alforriados, conforme o que havia sido combinado. "A história da contribuição dos negros ao nosso país recém-começou a ser contada, trata-se de um esforço para gerações inteiras". Oliveira continuou "no final dos anos 1960, senti curiosidade e necessidade de pesquisar o protagonismo de mulheres e homens negros no Rio Grande do Sul em particular e no Brasil em geral". Foi então que teve a ideia de reunir um grupo de interessados. Sem sede, o pequeno grupo, formado só por pessoas negras, passou a se encontrar na Rua da Praia - a mais querida rua da cidade (que na placa chama-se Rua dos Andradas). Diga-se de passagem, cantada nos versos e nas prosas dos autores gaúchos.
Oliveira seguiu: "nossas conversas giravam em torno da insatisfação com 13 de Maio, achávamos que a comemoração, além de chapa branca, homenageava uma princesa "portuguesa" e não o povo negro. Daí  percebi que era preciso encontrar uma data que fizesse justiça à luta continuada dos negros brasileiros". Foi o que fez. Atirou-se aos livros, mergulhou na importância do Quilombo dos Palmares. "É útil recordar que Palmares foi muito mais do que um quilombo, foi uma reunião de quilombos. Era tratado ora como república, ora como reino. Começou por volta de 1595 na Serra da Barriga, Alagoas. Resistiu por quase um século. Nos quilombos, viveram mulheres, homens, velhos e crianças que conseguiam escapar do terror escravista. Essa realidade desmente a bobagem de que os escravizados aceitavam sua submissão".
Durante a pesquisa, o jovem Oliveira Silveira topou com a data que precisava: 20 de novembro de 1695 - dia e ano da morte do líder Zumbi. "Do dia do nascimento dele ninguém tem registro". Zumbi é herói tão relevante para nossa história quanto o alferes Tiradentes. A primeira vez que soube da data foi num dos fascículo da série Grandes Personagens da História, da Editora Abril. Pesquisador cuidadoso, foi atrás da comprovação. "Confirmei no livro Quilombo dos Palmares de Edson Carneiro, publicado em 1947. Também o historiador português Ernesto Ennes mencionava o 20 de novembro em As guerras de Palmares, de 1938." Mais tarde, Oliveira Silveira conheceria e se tornaria amigo do historiador gaúcho Décio Freitas, autor do livro Palmares, la Guerrilla Negra, editado no Uruguai. Por empenho de Oliveira, esse trabalho viria a ser publicado, no Brasil, com o título Palmares, a Guerra dos Escravos.
Com o dia da morte de Zumbi confirmado, Oliveira Silveira partiu para a ação. Em 1971, em plenos anos de chumbo, fundou o Grupo Palmares. "Na formação inicial estavam: eu, Ilmo da Silva, Antônio Carlos Cortes, Vilmar Nunes, Anita Leocádia Prestes Abdad e Nara Helena Medeiros Soares. Mais adiante, entraram Helena Victória dos Santos Machado e Marisa de Souza da Silva, grandes intelectuais." Com o grupo estruturado, decolaram para a longa viagem de publicitação da data. "Nossa estratégia foi organizar debates em torno de personalidades negras. A primeira delas foi o escritor, jornalista e historiador Luís Gama (1830-1882), seguido do abolicionista José do Patrocínio (1853-1905)", ele recorda e acrecenta que poucas pessoas compareceram a essas discussões. A época não ajudava, estávamos no auge da repressão política. Também havia o estranhamento com um grupo de negros promovendo alta cultura.
20 de novembro de 1971, no Clube Náutico Marcílio Dias - um dos tantos clubes frequentados por negros em Porto Alegre -  foi realizada uma homenagem a Zumbi dos Palmares com inteção e inflexão de exaltação da negritude (palavra ainda não popularizada). "Compareceram umas vinte pessoas, mas todas da maior qualidade." Oliveira sorri ao recordar o que hoje é uma anedota saborosa. "Saiu na imprensa que Zumbi seria homenageado por negros do teatro. O pessoal da censura exigiu que mostrássemos a eles a programação. No final, o evento ocorreu com tranquilidade." O que a ditadura e a maior da população não imaginavam era que aquela reunião de gatos pingados negros e, entre eles, um ou dois brancos, seria a inuguração de uma data evocativa e de luta, nascidinha para fazer história. E que história! "Não o chamávamos ainda de Dia Nacional da Consciência Negra", continuou Oliveira. "O feliz nome seria dado, sete anos depois, numa assembleia do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCRD), pelo ativista Paulo Roberto dos Santos."
Nos anos que se seguiram, o desmanche do mito da democracia racial brasileira ganhou impulso. Mulheres e homens negros começaram a sair dos porões da história e assumir seus lugares nas salas de vistas. Populações de origem quilombola foram localizadas e valorizadas, organizações de mulheres negras levantaram a voz. Foram criados a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, do qual Oliveira Silveira foi integrante por notório saber. "Há muitas conquistas a serem celebradas pelo povo negro e brasileiro, por exemplo, as cotas. Mas um enorme trabalho precisa continuar sendo feito a favor da população negra, diz Oliveira.
Pedimos a conta à dona do café. Desligo o gravador, não por que o poeta, escritor e ativista tenha dito tudo o que queria, mas  por culpa do relógio marcando o meio-dia. Meu voo para São Paulo seria duas horas depois. No avião, burlando a monotonia das nuvens, vim pensando que havia vivido um grande pivilégio - desses que, às vezes, a vida presenteia. Oliveira Silveira tinha conversado comigo. Proseado detalhes que futuramente estarão na memória da história do Brasil. Em primeiro de janeiro de 2009, ouvi pelo rádio que o inventor do 20 de Novembro havia morrido. O que é uma meia verdade.
Fonte: Portal Geledés

domingo, 24 de julho de 2011

25 de julho Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha


       Nesta segunda-feira, 25 de julho celebramos o Dia da Mulher Afro-latino- americana e Caribenha. Não poderíamos deixar passar esta data, sem parabenizar a todas as mulheres e aqui pontuo todas as educadoras que nesta luta constante e diária, defendem uma educação pública de qualidade.
       As mulheres negras da diáspora africana celebram 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, como símbolo de (re)união e de (re)conhecimento mundial de suas histórias de vida guerreira, combativa e imprescindível à construção de um mundo solidário, multiétnico e pluricultural.
       A escolha da data ocorreu no I Encontro das Mulheres Negras da América Latina e do Caribe, realizado na República Dominicana, em 1992. O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha é mais do que uma data comemorativa, representa a luta pelo empoderamento das mulheres negras fora da África.
      No Brasil, as mulheres negras têm, em comum, vidas marcadas pela opressão de gênero, agravadas pelo racismo e pela exploração sexual. Só será possível pensarmos em um mundo novo ou num outro Brasil, quanto as diferenças forem consideradas como riquezas e não utilizadas como sinônimo de inferioridade.
      Deixamos o poema a seguir, como homenagem, temos plena certeza que ainda é pouco, mas que nossa escrita se torne mais um instrumento de reflexão nos 365 dias do ano. O poema  fala um pouco da trajetória dessas mulheres sempre presentes na caminhada para a superação das dificuldades, escrito por Serafina Machado (in Cadernos Negros 29).
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NEGRA
Para Gizelda
Sou mulher
Sou Negra.
Escura como a noite.
Escura como o Nilo, jorrando ondas de negralma.
Fui escrava.
Como mucama limpei o caminho dos meus senhores.
Fui corpo, sangue, orifício para o prazer do outro.
Fui operária, doméstica, lavadeira...
Negrimaculei a alvazia sociedade.
Costurei o rasgo da invisibilidade.
Subi o morro:
Favela de São Jorge.
Lá no alto, fui pássaro... Cantei.
Da África para o mundo
Mostrei minha voz humilhada,
porém, no ritmo do tambor,
forte.
Fui vítima
da minha cor, do meu sexo.
Muitas portas fechadas.
Fui guerreira e acordei
No meio da noite... tiroteios
São Jorge havia liberado o dragão.
Cuspes de fogo tentaram queimar meus sonhos.
Resisti...
Sou mulher
Sou Negra
Sou pobre
Sou história.
Escura como a noite.
Escura como o Nilo, jorrando ondas de
negralma.

Parabéns, Mulheres Negras Latino-americanas e Caribenhas!!!


Professora Marielda Medeiros

Marielda B. Medeiros
Departamento Pedagógico / Equipe de Diversidade
Assessoria do Afro Brasileiro e Quilombolas / 5ª CRE / Pelotas 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

África do Sul canta 'parabéns pra você' pelos 93 anos de Nelson Mandela


A África do Sul comemorou nesta segunda-feira o 93º aniversário de Nelson Mandela: as crianças das escolas cantaram para o ex-presidente, e toda a população foi convidada a realizar boas ações em homenagem a sua luta política.

Por iniciativa de sua fundação, o 18 de julho foi declarado "Dia de Mandela", data reconhecida agora pela ONU como uma convocação mundial para que cada pessoa consagre 67 minutos de seu tempo a ajudar seus semelhantes, conforme os valores defendidos pelo ex-presidente sul-africano.
Estes 67 minutos representam os 67 anos que Mandela dedicou ao combate do apartheid e por uma democracia multirracial.
Por Stephane de Sakutin
Em todas as escolas da África do Sul, às 08H05 (03H05 de Brasília), mais de 12 milhões de crianças cantaram um "parabéns para você" especial, africanizado para a ocasião por um compositor sul-africano.
Rádios e televisões transmitiram a canção e todos os moradores do país foram convidados a cantá-la ao mesmo tempo.
"Como primeiro presidente de uma sociedade livre e democrática na África do Sul, ele criou as bases de uma sociedade verdadeiramente não racista, não sexista, democrática e próspera", declarou o presidente Jacob Zuma em sua mensagem de felicitação.
No âmbito da operação do Dia de Mandela, os sul-africanos foram convidados a limpar ou pintar os colégios e orfanatos, a reparar as casas em mau estado em favelas pobres, a ajudar os necessitados, a doar sangue, etc.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ampliou a operação, exortando todos os cidadãos do mundo a consagrar também 67 minutos a fazer o bem.
Nelson Mandela, presidente de 1994 a 1999, se retirou da vida política em 2004. Dada a fragilidade de seu estado de saúde, comemorará o aniversário em família em sua cidade de Qunu, no sul do país.

quinta-feira, 7 de julho de 2011


Batalhão dos PMs do caso Juan é um dos mais letais


O 20º Batalhão de Polícia Militar (BPM), na Baixada Fluminense, onde trabalhavam os quatro policiais suspeitos de envolvimento na morte do menino Juan de Moraes, de 11 anos, é um dos quatro batalhões que mais matam no Rio de Janeiro.
Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), vinculado à Secretaria Estadual de Segurança (Seseg), em 2010 e 2011 (até maio), militares lotados no 20º BPM foram responsáveis por 87 autos de resistência - morte de suspeito em confronto com a polícia. Em média, são pelo menos cinco ocorrências por mês.
Ao longo de suas carreiras, somente os quatro PMs envolvidos no caso Juan se envolveram em 36 autos, todos na Baixada. O batalhão que mais matou este ano também fica na região, o 15º BPM, em Duque de Caxias, com 52 ocorrências.
Somando-se os autos de resistência de todos os batalhões do Estado, foram 311 ocorrências em 2011. A média nos cinco primeiros meses do ano é menor que a de 2010, quando 855 casos foram registrados. Entre 2007 e o ano passado, 4.700 pessoas morreram.
De acordo com a assessoria de imprensa da PM, as ocorrências envolvendo suspeitos mortos em confronto são encaminhadas para a delegacia da área. Os policiais civis, "geralmente", solicitam as armas dos militares. "Se na investigação ficar comprovada a culpabilidade dos policiais, eles podem sofrer punições diversas, dependendo de cada caso e da sentença do juiz", informou. 
A Seseg disse que 947 policiais civis e militares foram demitidos ou expulsos entre 2007 e o início de 2011 porque tiveram "algum comportamento grave". Durante a inauguração do teleférico do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que qualquer servidor da Seseg que estiver envolvido em desvio de conduta, seja da natureza que for, será punido "exemplarmente".
"Mesmo que muitas vezes a gente erre, como a polícia errou, essas pessoas serão responsabilizadas. E, se por ventura, esses policiais tiverem qualquer tipo de participação nesse fato horrendo, eles serão punidos", disse, referindo-se aos quatro militares, afastados na quarta-feira pelo comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte.
Enterro
O corpo de Juan, que desapareceu em 20 de junho após incursão de militares do 20º BPM à comunidade Danon, em Nova Iguaçu, na Baixada, deve ser enterrado amanhã. A reconstituição do crime também está marcada para esta sexta-feira.