Nego Drama

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Racismo e Preconceito na Sociedade de Classes: Contraposições, iniciativas e quebra da reprodução de conceitos racistas


Existe uma prática cotidiana de taxar o negro de racista às avessas, quando reproduz algum tipo de preconceito a outro segmento racial. Acreditamos que para este debate é fundamental entender dois conceitos. Primeiro, o conceito de racismo. Alguns intelectuais erram quando restringem o racismo ao ódio entre as raças. O segundo ponto é a concepção de preconceito.


O racismo é o preconceito contra um grupo racial distinto, fazendo com que o grupo opressor construa mecanismos de distanciamento e de controle sobre outro grupo racial. O racismo cria mitos, padrões, formatos, critérios, etc. Esses elementos juntos conformam-se em valores morais e estéticos, formalizando o que é certo e o que não é, o que é bonito e o que é feio, o que deve ser aceito e o que deve ser repudiado. Não é necessário entrar no debate já superado sobre o conceito de raça biológica. Todos sabemos que, do ponto de vista biológico, as raças não existem. Reivindicamos a raça negra sob critério político, de um segmento étnico no Brasil, em sua maioria afrodescendentes que sofreram e sofrem preconceito e discriminação. 

O racismo constrói leis, regras e mecanismos para manter o poder político e econômico, em detrimento da raça oprimida. Conforme Lênin, “o Estado é a organização especial de um poder: é a organização da violência”. A Universidade, na qual entram os filhos das elites, que são os das melhores escolas particulares, que por uma naturalização perversa são os filhos dos não-negros. A televisão, que prefere “gente bonita” que obedece a um padrão de beleza europeu, que é necessário para aparecer na mídia; logo, o padrão negado – o negro, no caso do Brasil -, não estará na televisão. Obviamente existem exceções, existe um ou outro negro que se adapta ou adéqua ao padrões para adquirir aceitação. Enfim, o racismo é um mecanismo perverso de manutenção de hegemonia, para exercê-lo é fundamental conseguir preponderância, coisa que hoje a população negra não possui. Não existem leis, regras, universidades, política, normas que fortaleçam uma dominação negra contra um segmento dominado.
O preconceito, por sua vez, é um juízo preestabelecido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou culturas consideradas diferentes. O ser humano tenta de forma equivocada estabelecer conceitos sobre coisas das quais desconhece, ou conhece superficialmente. Reproduzir o preconceito é um equívoco irrefletido.
As opressões sempre são geradas a partir de um movimento em cadeia, responsável por sua perpetuação. Três atores são fundamentais na constituição da opressão racial: o ser hegemônico, que organiza a opressão; o emissor da opressão; e o receptor oprimido. Dois dos maiores emissores do racismo, Demétrio Magnoli e o deputado federal Jair Bolsonaro, repetem que todos os avanços das políticas afirmativas criam uma sociedade divida em raças. É bastante cômico, pois não fomos nós quem criamos a sociedade racializada, ela foi construída com tijolos sólidos pelos não-negros. Existindo esta sociedade racializada, utilizamos o conceito político de raça para exigir reparação. No final, percebemos que não debater a divisão racial da economia é manter as estruturas como estão, o que não é nada ruim para a elite hegemônica, que no Brasil é formada por não-negros.
Nesse sentido, a ministra Matilde Ribeiro ousou ao afirmar que “não é racismo quando um negro se insurge contra um branco”. E disse ainda: “A reação de um negro de não querer conviver com um branco, eu acho uma reação natural. Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou”. Entendemos que a declaração da ministra aponta na direção de desconstruir a ideia de um racismo às avessas, uma vez que a prática racista apóia-se em um tripé político-econômico-étnico, inacessível ao trabalhador negro. O racismo é uma prática eminentemente política, interessante a uma elite branca que oprime política e economicamente. É importante ressaltar essas dimensões política e econômica do ato racista, pois existem os milhões de brancos brasileiros descendentes de imigrantes europeus pobres que vieram trabalhar na lavoura do café no fim do século XIX, após a abolição da escravatura, e que mais tarde, no veloz processo de urbanização e industrialização do país no século XX, com o declínio da economia cafeeira, migraram para as grandes cidades e transformaram-se nos operários oprimidos pela mesma hegemonia racista, que de tão abrangente afeta também o branco pobre. Portanto, é preciso revelar a luta de classes, em que há uma elite branca opressora e uma imensa massa oprimida, em grande maioria negra, mas que também incorpora os não-negros que historicamente sofreram o êxodo rural e os descendentes dos povos indígenas, que tiveram suas terras violentamente roubadas. O brasileiro trabalhador que discrimina seu companheiro negro reproduz irracionalmente o discurso do ser hegemônico, que organiza, legitima e dissemina a opressão racial e a falsa inferioridade do povo negro.


Ainda abordando o “racismo às avessas”, podemos citar o caso do bloco afro ilê aiyê, que sofreu muitas acusações de promover essa atitude. O bloco surgiu em 1974, e desde aqueles dias até hoje tem provocado muita polêmica. Quando surgiu, o jornal “A Tarde” publicou: "Bloco Racista, Nota Destoante", declarando que “não temos, felizmente, problema racial. Esta é uma das grandes felicidades do povo brasileiro”. Naquela época, os blocos de Salvador faziam um criterioso pente-fino com foto, endereço e faixa salarial para acessar ou não um bloco de carnaval pago. De lá para cá algumas coisas mudaram. O Bloco ganhou notoriedade, organizou movimentos, afirmou um povo e propõe a igualdade, a seu modo, empurrando o dedo na ferida. Mesmo com fama e prestígio, o Ilê Aiyê representa as cotas no Carnaval, na festa onde os trabalhadores negros trabalham para os brancos beijarem-se e divertirem-se. Para acessar o Ilê o critério não é meramente econômico, até porque se fosse assim excluiria a população negra. O critério para acessar o ilê aiyê é racial, é político, utiliza um mecanismo de combate ao racismo que se chama “discriminação positiva”: discriminar para dar entrada aos excluídos. O seu principal objetivo é fazer luta. Com certeza, um dia o Ilê se abrirá, mas quando houver igualdade.
O sentido de políticas afirmativas, como a do Ilê, é corrigir as desigualdades historicamente construídas, não criar um novo apartheid. O povo negro não deseja incitar o ódio ou a segregação, como afirmam os servos midiáticos da elite, mas protagonizar o processo de libertação dos trabalhadores oprimidos. “A grande tarefa humanística e histórica dos oprimidos é libertar-se a si e aos opressores,” como anunciou Paulo Freire. Isso só se torna possível quando os oprimidos lutam para libertar-se da situação de opressão em que vivem e modificar as estruturas do sistema opressor, que permite a violência do dominador, para que ninguém mais seja oprimido. Até porque, caso contrário, a luta não teria sentido, pois seria apenas uma troca de elites.
O problema da ação do capital no Brasil se dá principalmente em detrimento da população negra. Para Marx, “a história da sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes”. A luta de classes no Brasil está intrinsecamente ligada à luta anti-racista. É necessário organizar uma contra-ofensiva, não orientada pelo ódio – inútil à revolução - , mas norteada pela consciência da luta de classes e pela revolta contra esse modo indigno, desumano e injusto de organização social, promovido pela elite branca contra o trabalhador, especialmente o trabalhador negro. Não perdemos de vista que “o verdadeiro revolucionário é guiado por grandes sentimentos de amor”, como afirmou Che.
A tarefa é árdua, mas a vitória virá! Evidentemente, nós, negros e negras organizados, devemos dialogar nossas pautas cotidianamente com os setores que fazem a luta. Existem muitos aliados não-negros, por isso militantes da esquerda, movimentos sociais, dos direitos sexuais e das mulheres devem permanecer unidos.
Tendo em vista os aspectos observados, percebemos que os negros muitas vezes até reproduzem o preconceito que eles sofrem, mas isso não pode ser chamado de racismo. Mesmo assim, qualquer tipo de preconceito é nocivo, perverso e deve ser extirpado das relações humanas. O preconceito racial deve ser denunciado e excluído de toda forma de ação do Estado ou política pública. Para tal, nos organizemos duramente contra esse mal! Recordando o grande Luther King, “devemos aceitar a decepção finita, mas nunca perder a esperança infinita.”
Herlom Miguel é Militante do Coletivo Nacional Enegrecer
Diego Lustosa e Estudante História da Universidade Católica de Salvador, Militante da Kizomba e aliado da Luta Anti-racista

Por Herlom Miguel * e Diego Lustosa**
"A arma mais poderosa nas mãos do opressor é a mente do oprimido"
(Steve Biko)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Centro Cultural Erico Verissimo realiza Recorte Étnico

O Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV) promove, de 8 de junho a 6 de julho, a exposição Recorte Étnico no Rio Grande do Sul, com a participação de artistas plásticos descendentes de portugueses, espanhóis, japoneses, alemães, italianos e africanos, que tem a coordenação geral de Estelita Branco e de Arte, Mara Caruso. A mostra pode ser vista de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h e aos sábados das 11h às 18h, na sala O Arquipélago, primeiro andar.

O objetivo da exposição é homenagear as matrizes étnicas formadoras do povo brasileiro, com destaque à indígena, portuguesa e africana e a alguns grupos de imigrantes radicados no Estado: alemães, espanhóis, italianos e japoneses.





Os artistas buscam com esse trabalho resgatar biografias e cartografias, descrevendo formas, objetos, lembranças e emoções. "E com a imersão nessa fonte autêntica de inspiração deram vida à imaginação artística", diz a coordenadora Estelita Branco. Segundo ela, o envolvimento com histórias e heranças culturais do grupo escolhido propiciou laços com antepassados e com objetos familiares significativos. O retorno no tempo pode levá-los à reflexão, produzindo obras que reivindicam o direito à subjetividade e a autonarração.

Durante o processo de criação e elaboração dos trabalhos, as imagens dos objetos e personagens que fazem parte de todas essas histórias foram representadas nas mais diferentes técnicas e materiais, onde cada artista expressou as suas criações sobre a etnia e a cultura que escolheu trabalhar.

Processo de criação
Foram dois anos de pesquisa, nos quais o grupo formado por Estelita Branco, Déo Miranda, Júlia Toba, Leci Bohn, Mara Caruso, Sandra Fraga e Suzana Campozani, fez reuniões para apresentação dos estudos realizados, além de trocar idéias e lançar novos desafios. O elemento integrador entre as etnias focalizadas, durante o processo de criação e elaboração dos trabalhos, foi o mar.

Estelita Branco ressalta também que na construção do trabalho foram realizados almoços étnicos, com suas comidas, bebidas e objetos típicos. A partir desses eventos daí foram confeccionados cartazes em técnica digital impressos sobre lona plástica.

Exposição Recorte Étnico
Quando: de 08 de junho a 06 de julho
Onde: sala O Arquipélago, 1º andar, Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV), localizado à Rua dos Andradas 1223 - Centro Histórico de Porto Alegre

Quanto: Entrada franca


Fonte: Diário Popular 06/06/11

terça-feira, 24 de maio de 2011

Morre aos 97 anos o líder negro Abdias do Nascimento

Morreu na manhã desta terça-feira, no Rio de Janeiro, o ativista do movimento negro Abdias do Nascimento, 97. Ex-deputado, secretário estadual e senador, Abdias foi também pintor autodidata, escritor, jornalista, poeta e ator.
Ele estava internado desde abril. Ainda não há informação sobre a causa da morte e do horário do enterro.
Secretaria lamenta a morte do ativista Abdias do Nascimento
Veja galeria de fotos de Abdias do Nascimento
Leia, no acervo da Folha, entrevista concedida por Abdias do Nascimento em 2010
Sua defesa dos direitos humanos dos afrodescendentes lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2010.
Em março deste ano, esteve entre as lideranças negras convidadas para o encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no Rio de Janeiro.
Na ocasião, Nascimento afirmou : "a visita do Obama é importantíssima para aprofundar as relações entre o Brasil e os EUA. O fato deles terem eleito um presidente negro é uma lição para o Brasil".
Foi dele a sugestão de instituir, em São Paulo, o Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro desde 2006.

Abdias do Nascimento 1914 a 2011
POLÍTICA
Abdias do Nascimento foi o primeiro deputado federal do país a se dedicar à defesa dos direitos dos afro-brasileiros, de acordo com o PDT, sigla que o ativista representou no Congresso. Ele assumiu o cargo em 1983, eleito pelo Rio de Janeiro. Em seu mandato de quatro anos, segundo dados da Ipeafro (Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros), foi de autoria de Nascimento o primeiro projeto de lei de políticas públicas afirmativas da história do Brasil.
O ativista também foi suplente de antropólogo Darcy Ribeiro no Senado e assumiu a cadeira entre 1991 e 1992 e de 1997 a 1999.
Abdias nasceu em 14 de março de 1914 na cidade de Franca, localizada no interior de São Paulo, a 400 km da capital. Filho de uma doceira e de um sapateiro, viveu a maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde se formou em economia.
Começou a militar na década de 30, quando ingressou na Frente Negra Brasileira. Em uma viagem pela América do Sul com um grupo de poetas, assistiu a um espetáculo onde um ator branco pintava o rosto para interpretar um negro.
O episódio marcou Abdias e o levou a fundar o Teatro Experimental do Negro, em 1994, após ter cumprido pena na penitenciária do Carandiruo, preso pelo governo de Getúlio Vargas por resistir a agressões racistas.
O Teatro Experimental do Negro formou a primeira geração de atores e atrizes afrodescendentes do Brasil, e também contribuiu para a criação da literurgia dramática afro-brasileira.
Abdias se encontrava nos Estados Unidos quando o regime militar promulgou o Ato Institucional nº 5 e, por causa de diversos inquéritos policiais dos quais era alvo, foi impedido de retornar ao Brasil.
Seu exílio durou 12 anos.
Além do Teatro Experimental do Negro, o legado de Abdias inclui também o Ipeafro, fundado por ele em 1981, o jornal "Quilombo", criado em 1968 e mais de 20 livros publicados durante várias décadas.
Além da indicação ao Prêmio Nobel da paz --que ele afirmou nunca esperar vencer, ementrevista exclusiva à Folha, em 2010--, Abdias recebeu honrarias dos Estados Unidos, Nigéria, México, Unesco e ONU. No Brasil, recebeu das mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Ordem do Rio Branco, no grau de Comendador --a honraria mais alta outorgada pelo governo brasileiro.

Recebendo a comenda do presidente lula e 2006


fonte: Folha.com 



sábado, 14 de maio de 2011

Neste dia 14 de maio sábado, estiveram reunidos na casa da companheira Marielda Medeiros o coletivo de educadores e lideranças do Movimento Negro de Pelotas para avaliar a atual conjuntura do Movimento e a discussão sobre novas candidaturas negras no município, também foi discutido assuntos como as leis 10639/03 e 11645/08 e como se implementar na cidade.
Reunião do dia 14 de maio pós abolição 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Afro-Cena celebra o 13 de maio

13 de maio é uma data a qual a comunidade negra não comemora, mesmo ela tendo sido o dia no qual foi assinada a Lei Aurea, que tinha o princípio de libertar todos os escravizados. Mas com a lei em prática os negros escravizados saíram das senzalas e foram para as margens da sociedade. Sem direito a escola, trabalho, sem direito a ter direito. A Afro-cena sendo uma companhia cultural de integrantes negros, não poderia deixar essa data passar em branco sem promover uma reflexão. Apresentou na noite de sexta-feira, 13 de maio, na Sociedade Leituras o espetáculo ‘Um Sorriso Negro’, com um texto de improviso, o enredo apresentou uma história que começa na África alegre, viva, rica e bela. Passa pela escravidão, o sofrimento dos escravos e seus senhores. Os acontecimentos históricos e culturais, a Nossa Senhora Negra, a capoeira, as amas de leite, que alimentavam com seu leite materno os filhos dos fazendeiros, o carnaval a maior festa popular até os dias de hoje, onde apresentou a história de uma família desestruturada.  O pai, um rico empresário, que passou grande parte da sua vida voltado apenas para o trabalho, deixando de lado a família. Perdeu a mulher, uma cantora. E apenas sustentou e educou seus dois filhos, esquecendo do principal, o afeto e os sonhos dele. Viu sua empresa crescer e gerar um grande patrimônio, mas não viu seus filhos crescerem e se tornarem adultos, que acreditavam nos seus objetivos. O filho formado em arte cênicas e que acreditava nos seus sonhos e projetos. A filha estudante de contabilidade, por obrigação do pai, mas na verdade ela sonhava em estudar direito. Depois de uma longa discussão, o pai entra num surto e vê passar diante dos seus olhos a história da África, alegre, guerreira. E em função dessa viagem ele aceita ver o projeto do filho. Um filme que contava a história da cultura negra. O pai se emociona e percebe que estava errado em pensar e viver apenas a história da sua empresa e esquecendo que tinha uma família ao seu lado, filhos que o chamavam de pai, quando ele mesmo já havia esquecido o que era filho. Uma história carregada de emoção, mensagens fortes sobre racismo e sobre a importância da valorização humana. A importância de se ter e valorizar uma família.
A apresentação que contou com música, teatro, dança, poesia e filme, fez parte das comemorações do mês de aniversário do município, que está completando 120 anos, contou com o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura e com o apoio da Arte em Flor, Moda Festa e Potira Heinen. No elenco os atores da Afro-Cena, Maico Back – Capitão do Mato, Adriano da Conceição – escravo’ I Ato’ – filho – II Ato, Ana Laura Rosa – negra africana – I Ato – filha – II Ato e Sérgio Rosa. Como convidados especiais participaram Thereza Pinheiro da Silva – negra africana, Jaqueline dos Santos – uma passista, Amanda Ferreira, uma criança africana representando a cultura africana e Andressa Cabral da Silva – Nossa Senhora, Brenda Vedói da Silva – ama de leite, as duas são integrantes do Projeto Pé Pequeno, na Vila Batisti. Durante o espetáculo, foi lido um trecho da peça ‘Negra Gente Brasileira- I Ato’, foi cantado ao vivo por Sérgio Rosa e Adriano da Conceição trechos das musicas ‘Um Sorriso Negro – Dono Ivone Lara’, ‘O que é, o que é – Simone’, Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós – Samba Enredo Imperatriz Leopoldinense 1989′, e ‘Negro Nagô’.
Sérgio Rosa – Dir. Cia. Afro-Cena

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Morto há 30 anos, Marley continua um mito e ganha novo disco e filme


Três décadas depois, completadas na próxima quarta, a estrela rastafári segue brilhando alto, tanto no céu, ao lado de Jah, como na Terra


No dia 11 de maio de 1981, o mundo chorou a perda do jamaicano Bob Marley, com apenas 36 anos, em decorrência de um câncer generalizado. Três décadas depois, completadas na próxima  quarta, a estrela rastafári segue brilhando alto, tanto no céu, ao lado de Jah, como na Terra.
Afinal, o Rei do Reggae nem de longe perdeu o seu trono, continuando a ser o maior artista pop musical nascido fora do eixo Estados Unidos-Europa. Sua vibração positiva move antigos e novos fãs, como destaca Sérgio Nunes, 40 anos, vocalista do grupo de reggae  Adão Negro. “Minha filha Alice, 9 anos, tem dezenas de músicas dele no MP3. A música e as ideias de Bob não saem de moda”, diz. 
Tributos  Homenagens à memória do ídolo não param de surgir. O álbum Bob Marley and The Waylers, Live Forever (Universal), que registra o último show, é uma delas, assim como o documentário Marley, que estreia até o fim do ano.  Dirigido por Kevin Macdonald, de O Último Rei da Escócia, o filme pretende ser uma obra definitiva, trazendo depoimentos de amigos e familiares, como o filho Ziggy, um dos 12 herdeiros.
Também há rumores de que um filme biográfico sobre o rastaman  será rodado em breve. Apesar de que a cineasta britânica Jenny Ash ainda não conseguiu os direitos das músicas de Bob, que pertencem à ex-mulher Rita. Esta também quer produzir um filme, baseado em sua autobiografia No Woman No Cry: Minha vida com Bob Marley.
Conexão Brasil Saído da favela de Trenchtown para se transformar no maior divulgador do reggae no mundo -  sua coletânea Legend, de 1984, é o disco de reggae mais vendido do planeta –  Bob tem história de sobra para alimentar um bom filme. Nesse enredo fantástico, que inclui atentados, romances conturbados e a morte por um câncer cujo tratamento foi negligenciado por conta do rastafarianismo, há um ingrediente lembrado por todo fã brasileiro: a visita ao Rio em 1980.
Na Cidade Maravilhosa, Bob jogou uma partida de futebol ao lado de Chico Buarque, Toquinho, Moraes Moreira e o craque tricampeão Paulo César. Mas, se infelizmente não passou pela Bahia, vale lembrar que dois artistas da terra já estavam antenados ao jamaicano. Em 1971, no exílio em Londres, Caetano Veloso foi o primeiro  brasileiro a citar o reggae em Nine out of Ten, do disco Transa.
Oito anos depois, Gilberto Gil lançou Não Chore Mais, versão para No Woman No Cry, de Bob, que virou um hino da anistia no Brasil.  “Bob foi um dos grandes intérpretes dessa consciência de exclusão, de desigualdade”, lembra Gil, que em 2002 gravou Kaya N'Gan Daya, com músicas de Bob. “Foi o último artista a quem dediquei atenção profunda. Hoje ainda é das coisas que mais gosto de ouvir”.
Raiz baiana Parceiro também de Jimmy Cliff, outro reggae man jamaicano com quem fez um show histórico na Fonte Nova, em 1980, Gil é mesmo tido como um irmão espiritual de Bob, numa relação que virou tema de Carnaval na década de 80.
“Tem, tem, tem dois neguinhos/ Um morava na Jamaica, outro mora no Brasil/ Um se chamava Bob Marley e o outro é Gilberto Gil/ Mas Bob Marley foi se embora e se foi para o além /Mas deixou Gilberto Gil, que está indo muito bem”, dizia a canção de  Celso Bahia.
Presidente do bloco afro Muzenza, criado como um tributo a Bob, Jorge Santos, 49, destaca a importância do artista para os baianos na década de 70. “Os jovens da periferia se identificaram com ele. A realidade na Jamaica era parecida com a nossa”. Ele recorda como, na Liberdade, a Rua Alvarenga Peixoto foi apelidada de Avenida Kingston, em homenagem à cidade do ídolo.
O produtor Raimundo Santos ‘Bujão’, 53,  ressalta que a postura política de Bob foi logo absorvida pelos movimentos negros locais. “O reggae surgiu aqui com essa concepção militante, diferente de como foi no Maranhão”, compara.
Outro fanático por Bob, o cantor Lazzo Matumbi, 54, concorda que sua música era a sua melhor arma: “Porque, quando ela te atinge, você não sente dor... ”, diz, citando a letra de Trenchtown Rock. “Depois de 30 anos, a gente ainda ouve Bob Marley como se fosse a primeira vez”.
fonte: Missão Quilombo

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Mãe Stella fala sobre cultura iorubá e sincretismo religioso na Bahia

Mãe Stella de Oxóssi

Mãe Stella de Oxóssi foi a personalidade convidada para a volta do projeto “Com a palavra o escritor”, na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador.
A plateia ficou lotada de pessoas interessadas em literatura e cultura baiana. No encontro mediado pela escritora Yeda Castro, Mãe Stella respondeu a perguntas do público. O bate-papo girou em torno de temas como sincretismo religioso.
Frases de Mãe Stella foram projetadas entre fotos da escritora, que tem cinco livros publicados. Mãe Stella foi a primeira Ialorixá a escrever sobre a cultura iorubá. Doutora “honoris causa” da Universidade Federal da Bahia e com vários prêmios, Mãe Stella autografou suas obras.
História
Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, Iya Odé Kayode, é respeitada por suas ideias no país e no exterior, sendo uma referência no diálogo inter-cultural e inter-religioso . Ela falou sobre suas cinco obras publicadas, entre elas: “Meu Tempo é Agora” e “Oxóssi – O Caçador de Alegrias”.
Mãe Stella de Oxóssi, foi a primeira Ialorixá a escrever livros e artigos sobre sua religião. Para isso, ela viajou várias vezes à Africa para aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura iorubá transformando-a numa herança escrita (historicamente a cultrura iorubá é passada oralmente).
O trabalho de Mãe Stella, possibilitou maior divulgação dos cultos africanos e da religião dos orixás em todo o país. Ela tem feito palestras e participado de seminários em diferentes partes do Brasil e do mundo.
Em 2005, ela recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. Ela ganhou também as comendas Maria Quitéria (Prefeitura do Salvador), da Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e comenda do Mérito Cultural (Presidência da República).
Na Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), contra o racismo e a intolerância, ocorrida em Durban, em agosto de 2001, ela foi uma das mais fortes lideranças brasileiras.
Fonte G1

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Brasil está mais feminino e mais negro

O Brasil - com 190.755.799 de habitantes - está menos branco, mais velho, mais feminino e mais alfabetizado. A Sinopse do Censo Demográfico 2010, divulgada em 29 de abril, pelo IBGE, é resultado das entrevistas feitas pelas equipes do Censo 2010 em 67,5 milhões de domicílios em 5.565 municípios, de 1º de agosto a 31 de outubro.

Confira alguns índices abaixo com analise de especialistas:

Mais negros
Pela primeira vez, o percentual de pessoas que se declararam brancas caiu abaixo da metade: 47,7%. Em 2000, eram 53,7%.Mais pessoas passaram a se declarar pretas (7,6%), pardas (43,1%) e amarelas (1,1%). Os indígenas continuam sendo 0,4%.
O IBGE usa o conceito de autodeclaração para atribuir cor e raça, dentro das classificações preto, pardo, amarelo e indígena.
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"A declaração da proporção de população preta aumentou bastante, não porque aumentou a fecundidade nesse grupo, mas porque o sentimento de pertencimento cresceu, e a consciência é maior. Quanto maior é a consciência, maior é a resposta afirmativa", declarou Eduardo Nunes, presidente do IBGE.  Para a socióloga Paula Barreto, coordenadora do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia,  houve um processo de afirmação de negros e pardos. "Principalmente por conta do enfrentamento do racismo e de políticas públicas, como as cotas, as pessoas estão se sentindo mais encorajadas a se declarar pretas ou pardas", afirmou. Mas, segundo ela, cidades como Salvador continuam com uma "estrutura social perversa", nas quais o branco é associado ao patrão e o negro, ao empregado

Mais mulheres   De acordo com o Censo 2010, "faltam" quatro homens para cada grupo de 100 mulheres.Na última década, a população "perdeu" um homem: o país passou a ter 96 homens para 100 mulheres - em 2000, eram 97. Ana Amélia Camarano, demógrafa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), avalia que o crescimento mais acelerado da população feminina se deve ao envelhecimento: as mulheres vivem mais.

Casais homossexuais 
Pela primeira vez, o IBGE pesquisou casais do mesmo sexo. Foram contados 60 mil cônjuges de igual sexo do chefe do domicílio - apenas 0,2% do total. "Esse número está subnotificado e reflete, em parte, o preconceito, mas a tendência é que aumente nos próximos censos à medida que a legislação brasileira avance, como com o reconhecimento dessas uniões pela Previdência e pela Receita", disse Nunes, presidente do IBGE.
Folha de S.Paulo/O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Pobreza ou desigualdade não geram crimes em si




A riqueza tem cor
A desigualdade social não é a causadora do crime em si, mas o fato é que pessoas mais carentes, ou com pouco estudo, tendem a cometer crimes menos complexos como o roubo e furto, além de pequenos tráficos. Enquanto pessoas mais estudadas e com maiores recursos tendem a cometer delitos mais elaborados como o estelionato (golpes), crimes tributários, desvios de recursos e crimes de colarinho branco, os quais são mais difíceis de provar. Exemplo, uma pessoa mal vestida não conseguiria dar um golpe (estelionato) em uma loja, logo ele entra, subtrai a mercadoria e sai correndo (furto).
Outra diferença é que nos crimes mais elaborados as vítimas tendem a “perdoar” quando o criminoso devolve o valor subtraído uma vez descoberto. Como não é descoberto sempre, acaba ficando no lucro.
Nas últimas décadas tem sido imposto o conceito de que pobreza gera crime. Aliás, para muitos não é a pobreza em si, mas sim a desigualdade social, o que é medido com base no Índice GINI elaborado pela ONU (o qual mede o grau de desigualdade entre a parcela mais rica e a da distribuição de renda no país). Neste caso, o Brasil realmente está entre os primeiros do mundo na desigualdade social.

Inicialmente destaca-se que apesar de o Código Penal ter aproximadamente 1.600 delitos penais previstos, apenas três respondem por quase 80% dos presos no Brasil (furto, roubo e pequenos tráficos).
Importante ainda ressaltar isto, pois se faz necessário questionar as pesquisas sobre crime no Brasil, as quais são muito recentes e não mostram o retrato atual do que acontece.  
A rigor, alguns estudos criminólogos, elaborados mais por sociólogos do que por operadores de Direito, indicam que no Brasil para cada 100 crimes cometidos apenas um é punido. E ainda a pesquisa do IBGE em 2010 constatou que menos da metade das pessoas vítimas de furto (sem violência) ou roubo (com violência)  procuram a  polícia.  Este fato chamamos de “cifra negra”, ou seja, número de delitos cometidos  que não chegam a ser apurados ou punidos.
O meio jurídico é focado excessivamente na pena e muito pouco com meios preventivos ou estatísticos. O crime acaba alimentando um mercado de processos judiciais, tanto que nas faculdades de Direito não se estuda “Direito Criminal”, mas sim  “Direito Penal”.  Além de alimentar a indústria de produtos e serviços de segurança.
O que se vê na prática é que as pessoas têm dificuldade para comunicar o crime, o que poderia ser feito através da internet. Mas, alguns órgãos policiais não querem perder o poder de triagem e preferem gastar quase uma hora para lavrar uma ocorrência de crime em vez de permitir que a vítima faça isto pela internet, por exemplo.  No modelo atual  a vítima não consegue acompanhar a sua comunicação de crime, nem mesmo pela internet, o que acaba desestimulando o controle social sobre este serviço.
O sistema judicial, em geral, trabalha com o que a polícia quis formalizar. Portanto, não se pode medir “crime” pelos presídios, pois naquele momento já se fez a seleção, o que tem induzido em erro muitas pesquisas. Exemplificando, se a PM fizer blitz somente nas periferias e abordar veículos ou motos mais simples, apenas teremos processos penais contra pessoas mais simples.
Outro grande mito é achar que todo crime gera prisão como se crime e prisão fossem necessariamente a mesma coisa. Contudo,  há aproximadamente 500 mil pessoas cumprindo pena de prisão no Brasil, porém temos em torno  do mesmo número cumprindo pena alternativa (sem prisão).
A mente do criminoso habitual funciona como a de um comerciante, ou seja, busca o lucro e analisando o risco de ser pego e até mesmo a possibilidade de cumprir a pena.
A partir da década de 80 iniciou-se um movimento de quase idolatria ao réu e acentuou-se o esquecimento da vítima. Exemplo, em um crime de estupro o sistema jurídico praticamente nada oferece à mulher estuprada e vítima do crime, mas moverá o mundo para “ressocializar” o réu, incluindo assistência médica, psicológica, jurídica e até emprego. O mesmo acontece no homicídio, a família da vítima nada recebe do Estado.  O preso tem até “férias” de 35 dias ao ano (saídas temporárias), além do auxilio reclusão se estiver inscrito no INSS ou período de carência.  Hoje o réu sabe que tem poucas chances de ser flagrado e de ser preso, pois a defesa chega a ajuizar dezenas de recursos para que o réu fique solto e o crime prescreva, ou seja, não haja pena.
Nesta visão romântica do criminoso se esquece de que a mente psicopata não tem cura, pois é transtorno de caráter e pode até ser constatada através de ressonâncias magnéticas e por isto alguns setores reagem a exames neste sentido. Nem todo psicopata é criminoso e nem todo criminoso é psicopata, mas há uma relação acima da média entre estes dois fatores. Temos psicopatas inteligentes que poderão cometer delitos com “alto lucro”, como corrupção. E outros menos inteligentes que poderão cometer furtos e roubos. Isto é, se forem estudados e inteligentes não vão ficar furtando carteiras na rua, mas usarão a internet para dar golpes milionários e mais difíceis de serem pegos. Contudo, neste último delito não vai haver viaturas com policiais correndo atrás.
Logo, o grau de escolaridade do criminoso serve apenas para mudar o tipo de delito cometido.

O ditado “empresa quebrada e dono rico”, demonstra uma realidade de que muitos usam empresas para darem golpes e que são mais difíceis de serem provados. Além disso, há setores do Judiciário que tendem a exigir provas quase que impossíveis para se provar o crime ou então dar uma interpretação bem restritiva à lei quando se trata destes crimes elitizados.
Outro aspecto é o fato de que poucas pessoas sabem que venda casada de produtos é crime (Lei 8.137/90), logo não acionam a polícia, o que é uma faceta da “cifra negra”. Mas, todos sabem que furtar é crime.
A “triagem” de crimes é feita também na fase judicial (processual), porém a maior amplitude é na fase policial. E por isto é preciso aumentar atualmente o controle como colocar GPS nas viaturas policiais, exigir filmagens das abordagens, prestação de contas, lançamento das ocorrências na internet com consulta mediante senha e muito mais.
Existe um delito que tende a igualar ricos e pobres quando cometido no calor dos fatos que é o homicídio doloso (assassinato passional), mas em geral os crimes são diferentes em cada classe social. Se eventualmente um rico cometer um furto, a tendência é dizer que é cleptomaníaco e a própria vítima não procurará a polícia.
Normalmente, as pessoas que cometem crimes patrimoniais não gostam muito do trabalho, da rotina, da disciplina, têm muita ambição, acham-se mais inteligentes e preferem arriscar a obterem maiores lucratividades com atividades ilícitas. Afinal, não podemos crer que o tráfico de drogas, que é um dos maiores comércios do mundo, tenha os seus líderes morando em morros, favelas ou periferias. Na verdade, os grandes traficantes que lideram tudo intelectualmente estão nos bairros nobres. Ou seja, tanto pobre como rico cometem crimes, diferenciando apenas na forma. A rigor, “educar” estas pessoas não é como se tem pensado em dar apenas ensino escolar, mas sim, repensar os valores ensinados.
É preciso ressaltar que a impunidade grassa de tal forma que já se vê alguns integrantes da classe média e alta cometendo crimes de furto ou roubo, mas isto tem acontecido mais em razão do uso de drogas, em geral, o crack ou de excessiva preguiça para trabalhar ou estudar, bem com ambição exacerbada.
O que tem influenciado no aumento de crimes é a impunidade e também o próprio fato atual de tratarem os criminosos como se fossem as vítimas da sociedade. E então eles perdem a vergonha e o Estado perde o controle social. Imagine em uma sala de aula se o aluno mal comportado não tiver sanção ou se for tratado com privilégios, o que acontecerá? A tendência será que os outros também mudem para o mau comportamento e o efeito seria ampliado. O mesmo vale para uma empresa, a qual em vez de punir, então iria promover para tratar o coitado do servidor que desviou a verba.  No entanto, isto é o que tem acontecido no sistema criminal atualmente.
A questão não é de assistência jurídica, o que ocorre é que o crime de furto é fácil de condenar depois de descoberta a autoria. No estelionato além de ser difícil de provar a autoria, quando eventualmente esta é descoberta, ainda é difícil provar o que chamamos de “dolo antecedente” para provar o crime ou se houve apenas um “engano”. Ademais, a “assistência jurídica” na fase policial seja perante a PM ou perante a Polícia Civil costuma ser mais produtiva do que na fase judicial. Mas, para isto precisaríamos de um outro modelo de advocacia no Brasil, como já existe na Europa e nos Estados Unidos com os planos de assistência jurídica em que a pessoa liga para o número do plano e tem atendimento 24 horas. No Brasil, a advocacia de Delegacia é considerada menos nobre que a advocacia de Fórum em razão da formação elitista dos cursos de Direito. E nem se fala em eventual hipótese de corrupção, mas quando o advogado acompanha desde a fase de lavratura do BO tem muita mais chance de efetuar a defesa e até mesmo evitar a prisão provisória.
Outra medida importante é acabar com o monopólio de pobre que o atual Governo vem impondo com a estatização da assistência jurídica, o que tem dificultado os réus de escolherem advogados de confiança e que acaba gerando uma estranha figura em que Estado acusa e Estado defende, o que contribuiu para aumentar a quantidade de presos em 40% nos últimos oito anos.
No inconsciente coletivo a tendência natural é achar que crime é apenas furto, roubo, tráfico e homicídio, além de algumas agressões verbais e físicas, como estupro, lesão corporal e outros delitos desta natureza. Como a população não sabe o que é crime, tem dificuldade de comunicar à polícia e não há no Brasil um site explicando os crimes, nem mesmo no sites policiais e isto acaba dificultando. Aparentemente, há um desinteresse em democratizar estas informações, pois quanto mais esotérico, mais empodera o meio policial e o jurídico.
Outro ponto que tem passado despercebido pelas pesquisas é saber diferenciar em criminoso habitual e criminoso eventual. Este último retorna naturalmente à sociedade. Por exemplo, o que cometeu um acidente de trânsito, mas o criminoso que vive de dar golpes dificilmente abandonará esta vida.
Raramente se vê arrependimentos reais por parte do criminoso, este tende a se colocar quase sempre no papel de vítima, o que é reforçado pela atual concepção social de que é um “coitadinho”.  Quase nunca o criminoso se preocupa em reparar o dano ou com a situação da vítima, mas sempre é muito exigente com os seus direitos.  Mesmo quando descumpre as regras da execução penal não se sente envergonhado de pedir para que se descumpra a lei para lhe dar uma nova chance e para que não sofra sanção, afinal sempre tem uma história de “perseguição” para contar.
Um grande erro das pesquisas e da sociedade é considerar criminoso apenas quem está preso, mas sem computar os que cumprem pena alternativa. Além disso, temos criminosos que não foram descobertos (e que não são poucos), temos condenados que não cumprem pena por estarem foragidos (estima-se em 300 mil pessoas).
No Brasil estamos no absurdo de não se poder divulgar que alguém foi condenado, pois viola a sua imagem. O errado passou a ser o exemplo e uma espécie de mártir.
É preciso repensar esta filosofia atual, pois quem dirige embriagado o faz por que quis e não porque a sociedade o reprime, logo é um coitadinho. O mesmo valendo para outros crimes como assaltos a bancos, estupros, assassinatos, golpes e muito mais. A punição destes é essencial para que haja prevenção e os demais não cometam os mesmos delitos, e isto vai gerar a diminuição da quantidade de presos, o que não ocorre quando tratados como coitados. Não se defende punições humilhantes, mas durante o cumprimento de pena alternativa, por exemplo, deveria usar o jaleco quando prestasse serviço como é nos Estados Unidos.
De forma paradoxal, quanto mais tratarmos os criminosos como coitadinhos, mais os crimes aumentam e mais as prisões também. As pessoas precisam ter vergonha de ter cometido o crime, o que não implica em punições desumanas, mas as sanções devem ser rápidas e não pode um processo durar vinte anos com base na ampla defesa, pois para tudo é preciso ter limites.
Por fim, pobreza gera crime? A pobreza não gera crime em si, mas o pobre ou pessoa com poucos recursos ou estudos tende a cometer crimes de furto, roubo e pequenos tráficos, enquanto as pessoas mais ricas ou mais estudadas tendem a cometer crimes mais elaborados ou a ficarem na parte intelectual, o que é mais difícil de provar, e se for comprovado e condenado, a pena é mais leve.

Portanto, a pobreza ou a desigualdade social tende a gerar determinados tipos de crime menos elaborados, e não o crime em si, sendo que a maioria dos crimes é cometida por questão de caráter, expectativa de impunidade, ambição e ausência de interesse em manter uma rotina de trabalho. A rigor, cada um comete o delito dentro de sua habilidade intelectual ou social, sendo que os crimes de furto e roubo, bem como pequenos tráficos são menos complexos para serem cometidos e normalmente as pessoas menos instruídas cometem este delito, enquanto as mais instruídas cometem crimes similares a golpes e são mais difíceis de serem provados, além de comportarem penas alternativas, por isto há menos presos, o que não significa que tais crimes não ocorram. Em suma, tanto ricos como pobres cometem crimes, variando apenas o tipo de crime para cada classe social, logo a questão é de oportunidade, caráter, risco e conseqüência.
fONTE: Luis andré melo