Mais um debate – o primeiro confronto pela Band, entre os
presidenciáveis que disputam o segundo turno - e, mais uma vez, o mais absoluto
silêncio sobre o tema que interessa e diz respeito diretamente a 51,3% da
população brasileira e, indiretamente, a todo o país: a desigualdade racial,
fruto de quase 400 anos de escravismo e de mais 122 de racismo pós-abolição. A
dívida eterna, reconhecida pelas elites dominantes, porém nunca paga.

Nenhuma palavra de Serra ou Dilma sobre os indicadores da
desvantagem, todos notórios porque recolhidos por organismos de pesquisa
insuspeitos - do IPEA, órgão do Ministério de Planejamento do próprio Governo
Federal, ao DIESSE, instituição mantida por Sindicatos e centrais
sindicais.
Todos os indicadores expõem, com a eloqüência dos números, os
lugares que ocupamos na pirâmide social brasileira: os piores, sempre os
piores.
* empregados negros ganham menos do que os brancos - até 50%
menos - dependendo da região do país;
* há mais desemprego entre os negros do
que entre os brancos nas várias regiões metropolitanas do país;
* Negros tem
2,2 anos a menos de escolaridade média do que os brancos, desde 1.929;
* A
indigência é 70% negra, embora os negros representem 51,3% da população. Segundo
o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) dos 22 milhões de
brasileiros que vivem abaixo da linha de pobreza 70% são negros, entre os 53
milhões de pobres do país, 63% são negros.
* As mulheres negras tem ainda
maior desemprego e menor renda que os homens negros;
* a mortalidade infantil
tem caído mais para brancos do que para negros;
* o analfabetismo é maior
entre negros que entre brancos, quadro que se mantém apesar da diminuição do
analfabetismo em ambos os grupos;
* o esgoto e a água tratada vão menos a
larres negros do que a lares brancos;
* a expectativa de vida para os negros
é, em média, seis anos menor que para os brancos.
Entretanto, tanto para
Serra quanto para Dilma, esse não chega a ser problema, ou não é relevante o
bastante para merecer atenção e propostas. Ainda assim, querem o nosso
voto.
O candidato e a candidata se ocupam de quase tudo: do aborto, da
privatização, falam de saúde, educação, segurança etc; quando falam de
segurança, por exemplo, sempre de passagem e genericamente, é como se não
soubessem que na guerra não declarada do Estado contra os pobres quem morre mais
são os negros.
Aborto, polêmica falsa e agenda conservadora

A polêmica sobre o aborto - mais falsa que uma nota de mil - revela que
um e outra estão irremediavelmente presos a uma agenda conservadora que não se
propõe a discutir os problemas reais do país. Não tocam nem de passagem em outra
questão fundamental para os cidadãos (ãs): uma reforma profunda no modelo
político-eleitoral-partidário que apodrece à olhos vistos e à céu aberto pela
corrupção e a compra de votos declarada.
Serra e Dilma tornaram-se
reféns dessa agenda por uma razão muito simples. Dilma e o lulo-petismo, que
algum dia já foram de esquerda, e Serra e tucanos, que em passado remoto se
pretenderam representantes da social democracia brasileira, não conseguem mais
esconder de quem detenha um mínimo de informação, o que de fato, são: expressões
da velha política de centro direita que hoje dá as cartas em plena era
Lula.
O que temos então, em resumo, são dois candidatos que, do ponto de
vista político e ideológico, tentam se vender como diferentes, porém, tem muito
mais convergências do que divergências entre si.
Sim, porque ninguém com
um mínimo de honestidade poderá atribuir ao Governo Lula qualquer resquício de
esquerda, posição de que abdicou ele próprio pouco depois de assumir a
Presidência, no mesmo contexto em que confessou que, na Oposição, se tornara
especialista em bravatas. É o “pai dos pobres”, a quem mantém com o Bolsa
Família, e a “mãe dos ricos” – os banqueiros, que “nunca antes neste país”
lucraram tanto.
Sustentado por índices de popularidade, só comparáveis a
Getúlio Vargas, no auge do populismo getulista, Lula – pela agenda e pelo
programa – faz um governo escancaradamente de centro direita. Quem tiver alguma
dúvida, confira quem são os parlamentares eleitos sob o guarda-chuva do
lulo-petismo nestas eleições e tire as conclusões por sua própria conta e risco.
Ainda assim, se dúvidas restar, observe como o PMDB, com Michel Temer de
vice, afia os dentes para lançar-se, com a voracidade que lhe é própria, aos
nacos da Esplanada que ainda não domina ou influencia.
Serra e o seu
PSDB, por sua vez, são produto do que pretendeu ser a social-democracia
brasileira. Uma social-democracia que, sem nunca ter botado a mão na massa – nem
se apresentado como oposição de fato, coisa que os tucanos de punho de renda
jamais se dispuseram a fazer - há décadas tornou-se a expressão dos setores da
classe média paulistana, com viés udenista moralista.
Mais do
mesmo
Um e outro – Serra e o PSDB, e Dilma e o PT – embora com
passados e histórias diferentes apontam oferecem a mesma alternativa. É como se,
aceitando o que propõe ambos, estivéssemos irremediavelmente condenados a
escolher “mais do mesmo”.
São e representam expressões distintas de como
lidar com a mesma agenda e nesta agenda os temas relevantes para a população não
têm espaço, porque nem um nem outro - a não ser pelo esforço da propaganda –
conseguem responder a seguinte questão:
a) como retirar o país – que é a
oitava economia do Planeta - da vergonhosa condição que ocupa, como um dos 10
mais desiguais do mundo, sabendo-se que a desigualdade social tem como um dos
seus elementos estruturantes a desigualdade racial, a herança maldita do
escravismo; b) como responder as demandas reais dos setores explorados da
população – na sua imensa maioria, negra - que ocupa os piores indicadores
sociais e cuja juventude nas perifereias é alvo da matança cotidiana,
generalizada e sistemática pelas mãos da Polícia – um horizonte e um
futuro.
Aliás, nesse tema do aborto – mais apropriado ao moralismo carola
-, as posições de ambos são rigorosamente iguais. Serra e Dilma defendem a
discriminalização. Como se trata de tema explosivo por envolver valores morais
arraigados na sociedade e pelas pressões da Igreja, incluí-lo na agenda acaba se
tornando até útil porque não deixa de ser uma cortina de fumaça para evitar o
debate real, que tudo indica, não acontecerá nesta campanha.
É pela mesma
e inversa razão que a temática da desigualdade racial passa ao largo e os dois
candidatos silenciam, com uma única diferença: os setores conservadores
católicos e evangélicos tem força para impor o aborto na agenda; nós negros,
embora representemos 51,3% da população brasileira, não.
E não temos
força por duas razões:
1 - pela omissão da parcela de intelectuais
negros e não negros – alguns dos quais ativistas e cotistas indignados. Tais
intelectuais, ou estão presos às carteirinhas dos partidos a quem servem, ou tem
uma visão conservadora da política: consideram até legítimo e necessário
defender cotas e ações afirmativas em colóquios e seminários, porém, “fogem como
o diabo da cruz”, quando se trata de assumir publicamente suas posições
políticas, inclusive para preservar seus próprios interesses como interlocutores
com o Estado e com Governos;
2 - pelo fato da maioria de ativistas e
lideranças terem sido cooptados pelos “puxadinhos” dos partidos e Governos, para
serem uma espécie de alegoria de uma inclusão que não há nem nunca houve. A
cooptação se dá pela mesmo caminho com que o Governo Lula domesticou os
movimentos sociais – inclusive as entidades e articulações negras -, a quem
mantém sob controle, como uma espécie de tropa de reserva para a defesa das suas
posições.
Política nos Partidos
Para essas lideranças,
fazer política sim, desde que seja no espaço dos seus respectivos partidos.
Curiosamente os setores mais conservadores e tradicionalistas da sociedade tem
exatamente essa visão: a política é tarefa para os políticos.
Tais
lideranças negras aceitam, passiva e docilmente, a regra de que a política deve
ficar a cargo dos políticos que dirigem os seus partidos. Como sabemos que todos
esses partidos – de A a Z - reproduzem racismo institucional, dão às costas ao
tema do racismo, e se recusam a ajustar contas com a herança maldita de quase
400 anos de escravismo e de mais 122 anos de racismo pós-abolição (veja-se o
caso do deputado Aldo Rebelo, maior liderança do PC do B no Congresso e
abertamente contrário às cotas e ações afirmativas) qualquer discussão sobre o
tema fica inviável.
Não se propõem a sequer negociar junto aos
presidenciáveis que apóiam, uma pauta com propostas que no diga respeito,
conforme propõe o Movimento Negro Unificado que, embora rejeitando um deles – no
caso Serra -, conclama a que o apoio a Dilma seja condicionado a um programa, a
um projeto e a compromissos da candidata de enfrentar o abismo da desigualdade
que nos atinge.
A urgência da organização política dos
negros

Por tudo isso, convém lançar na pauta, desde já, um tema que
não pode mais ser protelado: a criação de uma organização política negra e
antirracista de caráter nacional, capaz de abranger todos os setores excluídos
da sociedade – negros, indígenas e os pobres, os setores médios progressistas,
que pretendam romper os muros do modelo reprodutor da injustiça e da
desigualdade em que tucanos e o lulo-petismo querem que nos
mantenhamos.
No modelo tucano-petista, ou lulo-petista-tucano,
concentrador de renda, excludente e nada democrático, a Democracia não é para
nós – a plebe rude, majoritariamente negra - mas apenas para os “cidadãos” como
na Grécia antiga - não reconhece direitos aos escravos - no caso os seus
descendentes que somos todos -, nem sequer para merecer menção em um debate
entre os dois candidatos que disputam a Presidência da República.
A
amplitude da Democracia que defendem e praticam chega, no máximo, aos estratos
da classe média incluída dos grandes centros urbanos.
O único espaço
disponível nesse modelo é o “puxadinho”, o atalho da inclusão subalterna em que
a porta que reservada a nós para o acesso à cidadania é a dos fundos, vale
dizer: uma cidadania, de segunda classe, de segunda mão, na prática: cidadania
alguma.
Dê-se o nome de Partido, Frente, Congresso, ou o que seja, não
importa. Chegou a hora de rompermos a tutela perversa que nos ata a esse modelo
concentrador e excludente. Temos história, temos homens e mulheres capazes de
romper os muros do gueto e falar para o Brasil, em todas as áreas de atividade –
nas artes, na música, na política, na Academia, nos movimentos
sociais.
Lideranças como João Jorge, do Olodum, Mano Brown, o líder dos
Racionais, Reginaldo Bispo, Hamilton Borges, Márcio Alexandre, e tantos outros
por esse Brasil afora, estão chamados a dar voz de comando, convocando uma
grande encontro ou Convenção, ou Congresso – para estancar a dispersão que tem
caracterizado as iniciativas, a maior inimiga da nossa união e empoderamento.
Há, em cada bairro, em cada gueto desse país, em cada favela, em cada
morro, centenas de ativistas honestos e dedicados, jovens anônimos, que não
aceitam negociar a dignidade nem a alma rebelde “por trinta
dinheiros.”
Não há modelos prontos, nem acabados. Tudo é construção. O
mais importante é que seja uma organização política, com um Programa, capaz de
romper de vez com a servidão negra, que recupere a nossa auto-estima tão
lesionada pelo racismo e a história dos movimentos e organizações políticas
desde a resistência dos quilombos.
E que se proponha à construção de uma
agenda que ponha no centro do debate do país, a questão da igualdade; que seja
capaz de propor novas alternativas, de Estado, de Governo, de Democracia e modo
de vida.
Não tenho dúvidas de que, uma organização que não tenha como
centro de sua ação, a disputa de eleições – muito menos pelo modelo
político-eleitoral-partidário vigente – com uma proposta de união na diversidade
de posições políticas e ideológicas, sem a busca de hegemonismos fáceis e unida
por um Programa de Ação, será capaz de reunir e aglutinar a energia militante de
centenas, quem sabe, milhares de homens e mulheres negros em todo o país, e dos
nossos aliados antirracistas, para sonhar e lutar por uma República e por um
Brasil em que não sejamos mais “bucha de canhão” ou “a carne mais barata do
mercado.”
A hora é agora. Mãos à obra!
fonte afopress/ Por Dojival Vieira